“Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“
(Alberto Caeiro)
Certa vez, li em uma revista um texto escrito por uma jornalista sobre saber ouvir e, depois daquele dia, não vou dizer que aprendi (estou me esforçando muito, juro que estou), mas tenho tentado por em prática suas palavras.
Ela começa contando que após um dia exaustivo, repleto de percalços, ela chega em casa a ponto de explodir, literalmente. Toca o telefone, ela atende e ouve a voz da sogra. Nesse momento ela pensa que aquela seria a última pessoa com quem gostaria de falar, porém, por falta de outro ouvinte, ela descarrega nos ouvidos da sogra todo o seu dia. Do outro lado, silêncio. Ela não é interrompida nenhuma vez sequer, a ponto de achar que a sogra havia deligado. No entanto, após terminar sua ladainha de lamentações, ela ouve, simplesmente, as seguintes palavras: tente se acalmar, pois amanhã será um novo dia e eu te ligo para conversarmos. A sogra desliga o telefone sem dizer o por quê de ter ligado. A jornalista finaliza sua narrativa dizendo que às vezes queremos apenas alguém que nos escute e que respeite nossas dores e, naquele dia, ela encontrou esse respeito em quem ela menos esperava.
Dizem que o maior problema é o nosso, assim, temos a tendência de quando alguém nos fala das suas dores e frustrações, tentar minimizar o sofrimento alheio expondo as nossas angústias, demonstrando, com isso, uma imensa falta de respeito com aquele que apenas queria ser ouvido naquele instante.
Isso eu tenho sentido na pele, agora mais do que nunca, pois, quando tento compartilhar com alguém as dores físicas e emocionais causadas pela Esclerose Múltipla, são bem poucos os que me ouvem simplesmente. Poucos têm entendido que quero apenas ser ouvida.
Eu poderia escrever longamente sobre o assunto, no entanto, Rubem Alves já o fez com tal propriedade, que não ouso acrescentar nada além, apenas deixo suas palavras para reflexão:
Escutatório
(Rubem Alves)
Sempre vejo anunciados cursos de oratória.
Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar.
Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas
acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e
sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as
árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é
um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que
não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas,
estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe
fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não
consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas -
coitadinhas delas - entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas
palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir.
Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se
ver e preciso que a cabeça esteja vazia.
Faz muito tempo, nunca
me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas
contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que
o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as
outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a
mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher
de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma
literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam
de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos
exames complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos
vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou
ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de
acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora
ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada...“ A segunda iniciou, então, uma
história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera
que os sofrimentos da primeira.
Parafraseio o Alberto
Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso
também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a dificuldade: a gente não
agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o
que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não
fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por
aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais
às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo
Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.“ Nossa incapacidade de
ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no
fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo,
Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64.
Pastor protestante (não “evangélico“), foi trabalhar num programa educacional
da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua
experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os
participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes
de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se
estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando.
Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para
se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à
espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos
ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande
desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava
essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida
que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que
o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira:
“Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou.
Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você
terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.“ Segunda:
“Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há
muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que
você falou.“ Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que
uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente
tudo aquilo que você falou.“ E assim vai a reunião.
Há grupos religiosos
cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num
mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos
para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções,
não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma
disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme
prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus
vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso
não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui
informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia
três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de
medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto
muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de
várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas
sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos
bancos arranjados em “U“ definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem
quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns
minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens
escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos
Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se
fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do
pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são
sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos
continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para
dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino...“ Cinco minutos, dez, quinze. Só
depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara
vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu
comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É
preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o
silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a
ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve
nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia
que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no
silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas
de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral
submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar
- quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me
veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência
religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório
e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda
nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a
importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é
quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto...
Um grande beijo!
P.S.: No final de semana passada assisti a uma brilhante entrevista com Rubens Alves no Programa Dossiê, da Globo News. Para quem não viu, assista clicando aqui: Rubem Alves . Vale a pena!
Muio boa essa crônica!
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