terça-feira, 27 de novembro de 2012

Hoje, doeu...

Bete Tezine, Dor, 2012. Arte objetual.



Se eu pudesse, pegava a dor; colocava a dor dentro de um envelope e devolvia ao remetente.

(Mario Quintana)



Quando escrevi o post Efeitos colaterais (clique aqui para ler) , eu relatei que nós dois (eu e o Rebif), após meses de estranhamento, começamos a nos entender e as injeções não estavam me causando mais tantas reações. 
No entanto, a que me apliquei ontem à noite, resolveu que era tempo de me fazer vítima da sua bipolaridade, pois, acredito que o Rebif é, sim, bipolar. E digo mais, o lado extremamente mal humorado dele, sempre se sobressai em detrimento do lado mais calmo, pacífico, de bem com a vida, se é mesmo que ele tem um.
Meu Deus! Como estou sentindo, no dia de hoje, todo o mau humor desse medicamento insano em meu próprio corpo! 
Não sei por qual motivo, mas, acredito que, cansado de me dar uma trégua e, em uma profunda crise de identidade, quando não conseguiu conter seu lado sombrio, ele chegou à conclusão que era a hora de me lembrar da sua presença indigesta, pesada e massacrante na minha vida.
Como ele martelou minha cabeça! Tum...tum...tum...tum...tum...tum... nossa! Meu cérebro latejou tanto dentro do meu crânio, que tive a nítida impressão de que ele explodiria em mil pedaços que seriam lançados para fora da minha caixa craniana.
Meu corpo! Ah! Meu corpo! Quanta dor! Sabe a sensação que tive hoje? Foi a de que fui processada em um moedor de carne gigante ou a de que fui atropelada por um trator esteira, tal a intensidade do mal estar que senti o dia inteiro.
Minhas articulações ficaram rígidas... minhas pernas pesaram... meus braços ficaram lerdos... 
Ah! Rebif, seu malvado! Por que resolveu fazer isso comigo outra vez? Não dava para continuar com a trégua que tínhamos estabelecido entre nós? 
Sinceramente, eu espero que amanhã, seu lado mais de bem com a vida se manifeste mais intensamente que o lado negro do seu caráter, pois, se assim não for, acho que vai ser difícil demais, outra vez.
Agora, vou precisar parar, pois, digitar tornou-se uma tarefa árdua para minhas mãos e meus braços cansados.

Um beijo dolorido...

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Eu, como ser individual...

Bete Tezine, 2012.



Fiz desaparecer a minha individualidade para nada ter que defender; afundei-me no incógnito para não ter qualquer responsabilidade; foi no zero que procurei a minha liberdade.

(Henri Amiel)




Estive pensando, dia desses, em como nossas convicções, em como coisas que tínhamos como imutáveis, podem se transformar, podem adquirir novos contornos e novas possibilidades. 
A bem da verdade, estamos, constantemente, mudando de opinião acerca de vários assuntos, assumindo novas posturas diante de fatos que nos eram inconcebíveis e, depois de um tempo, mudando o olhar, notamos que aquilo já não é tão impossível de ser assimilado como pensávamos anteriormente. Na verdade, tudo no universo é passível de transformação e, conosco, não tinha porque ser diferente.
Falando por mim, posso dizer que tenho sofrido um sem número de mudanças no meu modo de ver, pensar e agir. Tenho estado em constante mutação do meu olhar e do meu entendimento sobres coisas que, anteriormente, me eram inadmissíveis.
A começar pela minha individualidade, eu posso mesmo afirmar que somente a assumi há poucos meses, pois, antes disso, não me julgava um ser único, não mesmo. Na concepção do meu próprio eu, eu não me via como uma mulher, ou seja, um ser humano do sexo feminino, mas, era, tão somente, filha, irmã, mãe, esposa, amiga... Na minha visão, eu não existia individualmente, nada disso, pois, estava atrelada a um sem número de rotulações, que me via impedida de pensar em mim como um ser individual, dotado de vontade própria e motivos para querer viver minha própria vida, não apenas as dos outros, mas, a minha também. 
Foi aí que, de uma hora para outra, impelida pela descoberta da Esclerose Múltipla, eu fui praticamente obrigada a voltar meus olhos para mim. Precisei parar por um instante e me autoavaliar, me olhar no espelho e perguntar quem eu era, o que eu queria de mim e para mim, como seria dali para frente, o que e como fazer... Indagações, indagações e mais indagações. Repostas? Bem poucas, quase nenhuma, na verdade.
No entanto, me foi impossível deixar de perceber que todas as minhas convicções a respeito do meu papel como ser humano, estavam prestes a ruir, pois, eu não era mais, unicamente, filha, irmã, mãe, esposa, amiga... agora, eu era, também, portadora de Esclerose Múltipla. Fato esse que me mostrou o quanto estamos em constante mutação no que diz respeito aos nossos valores e às nossas opiniões.
Foi assim que, não digo que sem resistência, não digo que sem algum sofrimento, eu necessitei assumir-me como pessoa, sem rotulações, mas, como eu mesma, a Bete Tezine, a mulher. Não a filha, não a irmã, não a mãe, não a esposa, não a amiga... mas, a Bete Tezine, simplesmente. Eu, apenas eu, sem levar ninguém junto de mim. 
Essa, tenho certeza, foi a maior das mutações que sofri na minha visão de mundo, não significando com isso que foi a mais importante, mas, foi a partir dela que tenho, a todo momento, me desvinculado de algumas convicções que não me servem mais e, agregado outras mais compatíveis com a minha nova realidade.
Desse modo, posso afirmar que nada é imutável, nem mesmo, nós.

Um beijo de um ser individual...



domingo, 25 de novembro de 2012

Mais um dia de solidão...





Você foi a esperança nos meus dias de solidão,a angústia dos meus instantes de dúvida, a certeza nos momentos de fé.

(Paulo Coelho)








Hoje, é um daqueles dias em que eu tinha tudo para rir, festejar, dar vivas, porém, algo dentro de mim acordou de uma forma que não me deixa sorrir... não sei dizer o que foi, não sei mesmo se existe algum motivo palpável para eu me sentir assim, nada me faz identificar a causa dessa angústia que me incomoda e que faz com que o choro fique à beira das margens das minhas emoções.
Eu estou assim, simplesmente. De repente, sem mais nem menos, sinto uma melancolia que me deixa contida dentro de mim mesma. Uma dor que escraviza e que me tira o ânimo para reagir.Sinto-me só. É isso, sinto-me sozinha, mesmo estando rodeada de pessoas. 
E assim, nesses dias de solidão, tudo me oprime, tudo me exaspera, tudo me deixa mais sozinha ainda. Nada adianta, nada faz a dor passar, nada me faz ter vontade de sair de dentro de mim.
Estou só... sozinha em meio a multidão.
Estou só... sozinha dentro da minha própria vida.
Estou só... sozinha comigo mesma e uma melancolia sem fim.
Estou só... sozinha com um choro que não cai de uma vez para, quem sabe, me deixar menos só.
Estou só... sozinha com uma necessidade insana da presença de alguém distante do meu toque, mas, tão próximo da minha alma, que chego a sentir o seu calor.
Estou só... sozinha para lidar com a falta que alguém me faz quando fico sem notícias.
Estou extremamente só e, isso, desperta o pior de mim. Desperta as minhas fraquezas, meus medos camuflados em coragem, minha alma pequena diante da dor da solidão. 
Eu não quero mais me sentir sozinha rodeada de pessoas que não me fazem companhia. Não quero mais ficar sozinha em meio à multidão que me cerca e me faz ainda mais só. Não posso mais ficar longe do que me aquece o coração e acalenta a minha alma.
Eu preciso sair desse ciclo de angústia, medo e incerteza. Preciso ir de encontro a alguém que, se transformou, na única maneira possível de aplacar essa solidão que me parte o coração e me fere a alma.
Eu necessito da sua presença em minha vida, principalmente, hoje, que me sinto extremamente só.

Um beijo solitário....