quarta-feira, 17 de julho de 2013

Não apenas me veja... me enxergue!

Bete Tezine, Autorretrato.
Pintura digital sobre fotografia, 2013




Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.

(Antoine De Saint-Exupéry)







Eu já disse, em alguns posts anteriores, que não possuo sequelas visíveis, mesmo tendo convivido tanto tempo com a Esclerose Múltipla sem qualquer tipo de tratamento, uma vez que o diagnóstico da sua presença em minha vida foi tardio.

Quem me vê, mas não me enxerga, não consegue detectar que carrego comigo uma doença degenerativa e incurável. 
Quem me olha, mas não me percebe, não vislumbra que caminho, lado-a-lado (isto porque não permito que ela passe à minha frente), com uma enfermidade imprevisível e geniosa como essa que compartilho com tantas outras pessoas mundo afora.
Quem não me desconhece, mas não me conhece, não entende os meus momentos de esgotamento profundo e completamente debilitante.
Porém, o fato de o mundo, quase que inteiro, não ver o que a Esclerose Múltipla provoca no meu corpo, mente e emoções, não a torna invisível a mim e àqueles que sabem exatamente quem e como eu sou. 
Eu ando, eu enxergo, eu escuto, eu penso, eu observo, eu falo, eu vivo... faço tudo isso e muitas outras coisas da forma que a minha companheira de vida permite. Algumas vezes eu não lhe dou ouvidos e, por se sentir ultrajada em seu poder de controle, ela se vinga no dia seguinte e me deixa, literalmente, entregue aos seus caprichos. Outras vezes, eu obedeço aos limites impostos por ela e, ela, feliz por se ver obedecida, me dá trégua e me permite, ligeiramente, esquecer da sua presença em minha vida, se transformando em quase sombra, silenciosa e  praticamente adormecida.
Meu corpo não a mostra a olho nu. Meu corpo não demonstra as dores, as parestesias, as espasticidades, os choques elétricos, a falta de força, os medos, as ansiedades, a fadiga debilitante aos que não enxergam através do que só é possível ver com olhos de quem sabe ver.
Eu tenho Esclerose Múltipla, sim, e isso é um fato imutável. Não vou melhorar me autoaplicando o Rebif, ela não vai desaparecer se eu fingir que ela não existe, ela não vai sair da minha vida da mesma forma que entrou, inesperada e silenciosamente.
Portanto, não me falem que eu vou me livrar da fadiga e das dores e de toda a gama de sintomas que ela provoca em mim, por melhores que sejam as intenções. Terei dias bons, dias não tão bons, dias ruins, dias melhores, dias piores, mas, em todos eles, a minha companheira indigesta estará ligada, irremediavelmente e irreversivelmente a mim e, isso, não é falta de fé, como já ouvi diversas vezes, não é pessimismo, como já ouvi também, é apenas realismo e aceitação, o que não significa que deixarei de lutar até o fim para ficar o melhor possível, dentro do que é possível sendo portadora de uma doença autoimune, progressiva, degenerativa e incurável.

Um beijo visível aos olhos do coração!

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