sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Alma de criança

Bete Tezine, Infância, 2012. Ponta-seca,aquarela e ecoline sobre fotografia.


Eu fico com a pureza
da resposta das crianças
É a vida, é bonita
É bonita
E é bonita...

(Gonzaguinha)





O que mais me comove em uma criança é seu espírito despretensioso, sua alma ingênua, sem preconceitos, sem malícia, sem medo de sonhar.
É aquela alegria gratuita, sem motivo para rir, mas que contagia tudo ao seu redor.
É o afeto que não pede nada em troca, que nos dá sem esperar receber. Que se doa por completo, que estabelece laços de amizade que não desatam, que não se rompem, que não desmancham.
O que mais me emociona na alma infantil é a leveza com que falam sobre as coisas da vida, coisas do seu mundo tão pequeno, mas tão grandes diante da verdade contida em suas indagações.
A alma de criança não se prende a barreiras de cor, idade, sexo, religião, raça... nada disso importa quando ela resolve que vai ser sua amiga. Ela simplesmente te escolhe, se apaixona e se entrega sem reservas, sem cobranças, sem intenções ocultas.
Criança não vê o lado ruim das coisas, não enxerga defeitos, não sente medo de nada. Se atira completamente nas aventuras criadas por sua imaginação.
Não há limites para sonhar, não há limites para viver, não há limites para cantar, não há limites para sorrir.
Ser criança é ser livre para expressar suas emoções sem reservas, chorar quando estiver triste, rir quando estiver feliz, falar quando quiser falar, calar quando quiser se calar.
A alma de criança não se conforma com respostas vãs. Pergunta, questiona, pergunta de novo, questiona de novo até que se satisfaça com a resposta recebida e acredite que, o que lhe foi dito, é a melhor resposta para lhe dizer o que queria saber.
Essa alma de criança não se atém à idade, pois nos é possível ser criança por toda a vida, basta não nos deixarmos contaminar pelo medo de sonhar.
Feliz dia das crianças para todos nós!

Um beijo no coração, estalado como os das crianças!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Reflexões

Já não tenho dedos pra contar
De quantos barrancos despenquei
E quantas pedras me atiraram
Ou quantas atirei
Auguste Rodin, O pensador, reprodução.
Tanta farpa tanta mentira
Tanta falta do que dizer
Nem sempre é "so easy" se viver

Hoje eu não consigo mais me lembrar
De quantas janelas me atirei
E quanto rastro de incompreensão
Eu já deixei
Tantos bons quanto maus motivos
Tantas vezes desilusão
Quase nunca a vida é um balão

(Lulu Santos/Nelson Motta)


No momento em que começo a repensar minha vida, minhas escolhas, decisões e atitudes, sempre me fica um sentimento de que não fiz tudo o que poderia ter feito para que as coisas pudessem ter sido diferentes do que foram.
Não que eu traga arrependimentos pelos meus atos, mas, penso que alguns deles me levaram a sofrimentos desnecessários. Todavia, acredito que a melhor decisão foi a que tomamos no momento em que se fez necessário tomá-la, não outra qualquer, não essa ou aquela, mas, a que nos pareceu a mais acertada, mesmo que depois isso não tenha se mostrado correto.
Não trago dores por coisas que fiz. Não trago em mim desilusões por ter vivido momentos que, por um instante, apenas, foram eternos, mas que, depois disso, se dissiparam no tempo, me causando dores na alma. Foram momentos felizes, naquele momento, e isso me basta.
Tenho, também, comigo, a certeza de que fiz tudo o que poderia ter feito para que a minha vida pudesse fluir, pudesse viajar no tempo sem estancar em obstáculos encontrados pelo caminho. Me doei, me empenhei, me fortaleci, buscando sempre o meu lugar no mundo. Lugar esse que, a cada vez que me aproximo dele, sinto que se distancia de mim, mas, isso não me impede de continuar a minha busca constante.
Pessoas passaram  por minha vida e deixaram suas marcas. Não me arrependo por ter deixado a porta aberta para que elas pudessem entrar, mesmo para aquelas que não se mostraram bem vindas e, só me deixaram dor, no momento da partida. Faz parte do processo de existir.
Porém, o que me causa uma certa melancolia é quando penso que deixei de fazer coisas que queria, que podia, mas que, por comodismo ou, mesmo covardia, me esquivei, me deixei ficar, não agi.
Isso, para mim, é razão de arrependimento e é o que me faz refletir acerca das consequências que tiveram em minha vida meus momentos de omissão, meus momentos de covardia, meus momentos de comodismo. São essas, as únicas mazelas que, posso dizer, sempre acabam por emergirem nos momentos em que paro para ponderar tudo o que já vivi e o que, ainda, me falta viver. 
Não é que eu viva do passado, de lembranças do que poderia ter sido e não foi, mas, há coisas que acontecem na vida da gente e, outras que deixam de acontecer, pelo simples fato de não termos tido coragem no momento em que deveríamos agir e, por uma razão qualquer, ficamos estáticos, vendo a vida passar na nossa frente, sem ter coragem de pedir para que ela parasse, por um segundinho apenas, para que nós pudéssemos subir em busca da nossa própria felicidade.

Um beijo saudoso....

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Sangrando...


Depois de um tempo você  aceita que não importa o quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e, por isto, você precisa estar sempre disposto a perdoá-la.
Aprende que falar pode aliviar dores emocionais. Descobre que se leva um certo tempo para construir confiança e apenas alguns segundos para destruí-la; e que você, em um instante, pode fazer coisas das quais se arrependerá para o resto da vida

(Shakespeare)


Bete Tezine, Sangrando, 2012.
Ecoline sobre fotografia, 20 x 30 cm.

Há pessoas que passam por nossas vidas feito um furacão. Elas chegam inesperadamente e inesperadamente, também, vão embora.
Mas no curto espaço de tempo em que fazem parte da nossa história, conseguem tirar tudo do lugar, deixar de pernas para o ar tudo aquilo que acreditávamos estar bem solidificado em nosso interior.
Há pessoas que chegam sem avisar e, também sem avisar vão embora e, nesse curto intervalo de tempo, fazem coisas em nossas vidas que nos mudam para sempre. É impossível voltar a ser a mesma pessoa que fomos. É impossível retomar a vida do ponto em que fomos surpreendidos pelas suas presenças. É impossível continuar caminhando pelos mesmos caminhos em que caminhávamos antes. É impossível ignorar o capítulo que foi escrito, por suas breves presenças, no livro da nossa história.
E tudo isso escapa ao nosso controle. Não nos é possível assumir o comando de nossas emoções, dos nossos pensamentos, dos nossos sonhos. Tudo foge à nossa razão, à nossa compreensão, à nossa lucidez.
Há pessoas que nos desarmam, nos deixam sem defesas, nos colocam fora de combate. E quando percebem que estamos rendidos, simplesmente saem porta afora, levando com elas um pedaço de nós. E, em seu lugar, fica uma fissura sangrando, uma ferida aberta que demora muito para cicatrizar, quando cicatriza, porque, na maioria das vezes, a dor impede uma cicatrização completa.
Socorro! Estou sangrando! Nada do que foi faz sentido, mas a vida o que é além de uma sucessão de falta de sentido? 
A escrita ficou difícil agora. Deixo então o vídeo da música Socorro que fala o que se passa dentro de mim neste outro dia de escuridão.